Ele era o mais solitário que eu já havia conhecido, mas isso não significava isolamento; conhecido da cidade, cumprimentava todos em sua peregrinação diária. O horário de sua caminhada era sempre o mesmo havia dez anos, a cidade se orgulhava de ter um morador tão sistemático. Era alvo de campanhas políticas e esportivas. Não era fácil fazer as coisas com o garoto, seu sorriso era desconhecido, e a única coisa que ficava marcante era aquele rosto cinza e sério, mas como tudo que há naquela cidade, o que é antigo, é bom.
Já se passava das 8 da manhã e o ônibus ainda não havia passado, e eu não era o único a esperar o transporte. Ele estava ao meu lado; como sempre, irredutível quanto à sua postura. Será que ele vai andar de ônibus? Eu pensava.Tinha que avisar à cidade. Um momento histórico. Tudo vai mudar. Mudança.
E veio ele, através da neblina já fraca da manhã, aquele vermelho berrante.
- Consegue ler o número? – perguntou-me o garoto. Nervosismo, o que será que vai acontecer.
-Sim, é o 555.
-Ótimo. É esse mesmo.
Coração palpitando. Coração na boca. Momento Histórico. Mudança, até que enfim.
Piscando farol, braços para fora, gesto com a mão , buzina.