segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ao Entardecer o Riso

Sentado a beira do viaduto, com os pés erguidos sobre os carros que trafegam ferozes, encontra-se um par de olhos tristes. Olhos de um homem que despertou do frio, do cinza dia, das dores da cidade. E que agora fita o infinito que surge diante da solidão de sua tristeza, com o olhar vago de quem não tem pra onde olhar, apenas por estar olhando, somente, para si. Por afogar-se em seu mundo de lembranças ocultas, e perceber que vida, assim como o tempo, passa lenta quando não temos alguém a quem entregarmo-nos.

Sua vida se tornara vazia, vazia de um vazio que lhe morde o peito todas as noites; que arranca-lhe lágrimas silenciosas em meio a escuridão. E de tempos pra cá, todos os dias, ao ir pra casa, depois do trabalho, ele passa pelo mesmo viaduto onde se encontra nesse exato momento. Põe-se a observar a cidade por alguns minutos – entre o morrer do dia e o nascer da noite – como que a fim de se preparar para o que estar por vir.

A noite, misteriosamente clara, bela e solitária; a musa dos poetas, dos malandros,
dos sambistas; daqueles que se escondem durante o dia. É nela que os rostos se mostram límpidos, que os corpos se enfeitiçam, que as almas se fundem. E é nela também que os demônios põem-se a gritar. Principalmente os demônios deste homem. Esses gritam alto, aterrorizam os seus ouvidos. Trazem a tona lembranças cruéis. Memórias de um sorriso malicioso que um dia morou em seu peito.

E que ainda mora, na tormenta deste homem. Esse faz do seu passado algo perdido no tempo, passos que não passam. Faz também do seu presente algo que não se vive, que não se sente. Pois um sorriso, muitas vezes, é como uma doença que nos parasita e nos consome. Arranca-nos o nosso próprio riso. Depois mostra-se transparente no horizonte, e reflete nos nossos olhos as lembranças do que vivemos com esse riso. As tantas vezes em que esse mesmo nos fez sorrir. Sair por ai... Feito risos iluminados pela luz do sol poente. Sorrisos que se abrem como as flores.

Então as mãos que constroem versos sobre as cores, da cidade, entram em convulsão apenas pelas dores que elas tateiam. As dores dos prédios, as dores dos homens, e a dor do homem de olhos tristes. Que tropeça em si mesmo ao caminhar na densa multidão da vida. Que reflete no horizonte em meio a solidão que se faz constante. Procura a saída do labirinto o qual ele mesmo se jogou. Fecha os olhos para ver melhor. E sente que o tempo, esse tempo que passa feito o vento a beijar sua face, trata de acertar as coisas. E de despertar novos sorrisos em rostos de antigos amantes.


Luian Damasceno

domingo, 12 de julho de 2009

Soluço

De cima da lage ele contempla a favela. É manhã de domingo, as pessoas se movimentam em torno da cerveja e do futebol, que logo ocorrerá no campão. O sol ainda está fraco, de um calor agradável, como se sua função somente fosse ourificar de luz a cena; coroar o menino que de cima da lage se sente um rei.

Alguém assobia, ele desperta e por instinto passa a mão no cano, um trinta e oito cromado que fora do seu pai, e averigua o chamado.
_ Se liga mané! Daqui a pouco começa o movimento no beco três! O moleque ta passando aí pra faze o recolhe.
_ Ja é! Manda vim!
Era sete horas, o marco do termino do seu plantão, ele conta o dinheiro e a droga, passa o valor pro gerente e os entrega para o avião. Depois caminha calmamente para o sua casa e descansa algumas horas.

Acorda animado, já era meio dia e daqui a poucos minutos o jogo do seu antigo time vai começar. Ele se apressa, monta na Honda Bis e corre em direção ao campão. Lá ele cumprimenta as pessoas, senta na mesa com os amigos, e assisti o jogo como se fosse o técnico do time. Dizendo o que cada um dos jogadores deveria fazer; imaginado consigo como ele faria determinada jogada, quem ele marcaria, quantos gols faria. E imagina isso tudo com uma tristeza amarga. Tomado pela frustração oriunda da impossibilidade. Mas aprecia com gosto a partida, a cerveja, os amigos e o dinheiro.

Ao término da partida ele a discute, toma mais algumas cervejas e vai almoçar na casa da mãe. Lá ela prepara a carne de domingo, pede pra ele arrumar a mesa. Depois os dois sentam-se e almoçam em silêncio. A mãe fita o filho com aflição, a mesma aflição com que fitava o pai. A aflição de não saber se no próximo domingo ela o terá ali. Ele percebe, e fala que vai largar. Que só esta esperando juntar um dinheiro para conseguir com um taxi. Ela consente que sim. Mas escuta no filho as palavras do pai. Assistem um pouco de televisão e depois ele vai para o churrasco que esta acontecendo na casa de um amigo.

Ele seque o caminho pensando no futuro. Se perguntando até quando seguirá o mesmo caminho pelos tardes de domingo. No churrasco se diverte, aprecia as mulheres, os amigos, a casa do velho amigo. E já na porta da noite retorna pra casa. Em casa observa com zelo seus antigos pertences, sua primeira camisa do flamengo, suas fitas de funk, a bola de couro de ganhara do pai. Pensa no passado, no futuro e no presente. Liga o radio e escuta: “Destino!’ Destino... Destino... Sim. Ele poderia ter se tornado algo diferente. Faltou-lhe foi coragem. O mesmo medo que o faz apertar o gatilho o fez aposentar seus sonhos. Então é tomado por um extremo sentimento de mudança; por uma forte vontade de se tornar o senhor do seu próprio destino; por uma urgente necessidade de corrigir o que foi feito. Sobe na lage, contempla as luzes da favela, o calor da noite. E abri no rosto o sorriso acanhado da criança que um dia fora.

Na manhã seguinte, os moradores comentam que algum delator tinha sido mandado para o micro-ondas. Mas que ninguém ouvira nada, e que os homens que movimentam a favela diziam também não ter feito ninguém àquela noite. O gerente da boca vai ao lugar para averiguar o que os moradores diziam, e percebe no chão, ao lado dos pneus queimados, uma bola velha de couro e um trinta e oito cromado.


Luian Damasceno