domingo, 12 de julho de 2009

Soluço

De cima da lage ele contempla a favela. É manhã de domingo, as pessoas se movimentam em torno da cerveja e do futebol, que logo ocorrerá no campão. O sol ainda está fraco, de um calor agradável, como se sua função somente fosse ourificar de luz a cena; coroar o menino que de cima da lage se sente um rei.

Alguém assobia, ele desperta e por instinto passa a mão no cano, um trinta e oito cromado que fora do seu pai, e averigua o chamado.
_ Se liga mané! Daqui a pouco começa o movimento no beco três! O moleque ta passando aí pra faze o recolhe.
_ Ja é! Manda vim!
Era sete horas, o marco do termino do seu plantão, ele conta o dinheiro e a droga, passa o valor pro gerente e os entrega para o avião. Depois caminha calmamente para o sua casa e descansa algumas horas.

Acorda animado, já era meio dia e daqui a poucos minutos o jogo do seu antigo time vai começar. Ele se apressa, monta na Honda Bis e corre em direção ao campão. Lá ele cumprimenta as pessoas, senta na mesa com os amigos, e assisti o jogo como se fosse o técnico do time. Dizendo o que cada um dos jogadores deveria fazer; imaginado consigo como ele faria determinada jogada, quem ele marcaria, quantos gols faria. E imagina isso tudo com uma tristeza amarga. Tomado pela frustração oriunda da impossibilidade. Mas aprecia com gosto a partida, a cerveja, os amigos e o dinheiro.

Ao término da partida ele a discute, toma mais algumas cervejas e vai almoçar na casa da mãe. Lá ela prepara a carne de domingo, pede pra ele arrumar a mesa. Depois os dois sentam-se e almoçam em silêncio. A mãe fita o filho com aflição, a mesma aflição com que fitava o pai. A aflição de não saber se no próximo domingo ela o terá ali. Ele percebe, e fala que vai largar. Que só esta esperando juntar um dinheiro para conseguir com um taxi. Ela consente que sim. Mas escuta no filho as palavras do pai. Assistem um pouco de televisão e depois ele vai para o churrasco que esta acontecendo na casa de um amigo.

Ele seque o caminho pensando no futuro. Se perguntando até quando seguirá o mesmo caminho pelos tardes de domingo. No churrasco se diverte, aprecia as mulheres, os amigos, a casa do velho amigo. E já na porta da noite retorna pra casa. Em casa observa com zelo seus antigos pertences, sua primeira camisa do flamengo, suas fitas de funk, a bola de couro de ganhara do pai. Pensa no passado, no futuro e no presente. Liga o radio e escuta: “Destino!’ Destino... Destino... Sim. Ele poderia ter se tornado algo diferente. Faltou-lhe foi coragem. O mesmo medo que o faz apertar o gatilho o fez aposentar seus sonhos. Então é tomado por um extremo sentimento de mudança; por uma forte vontade de se tornar o senhor do seu próprio destino; por uma urgente necessidade de corrigir o que foi feito. Sobe na lage, contempla as luzes da favela, o calor da noite. E abri no rosto o sorriso acanhado da criança que um dia fora.

Na manhã seguinte, os moradores comentam que algum delator tinha sido mandado para o micro-ondas. Mas que ninguém ouvira nada, e que os homens que movimentam a favela diziam também não ter feito ninguém àquela noite. O gerente da boca vai ao lugar para averiguar o que os moradores diziam, e percebe no chão, ao lado dos pneus queimados, uma bola velha de couro e um trinta e oito cromado.


Luian Damasceno

sábado, 13 de junho de 2009

Quatro da Tarde

A casa está tomada de um silêncio confortável. O céu plenamente azul e o sol quente e refrescante. É o dia perfeito para um descompromisso.

E ao término de mais um capitulo fascinante de sexus, dou-me a escrever algumas notas; passagens que eternizam este momento sublime; palavras que reverenciam a vida, encharcadas de paz e paixão. Chego a até por um momento esquecer-me. Adapto-me nessa magnífica atmosfera que me envolve. E o pensamento brinca solto, livre feito uma criança a correr no céu. Foge da lógica, transpõe as barreiras de sua existencia, e sorri inocentemente a fitar o infinito.

A cidade se torna um parque de diversões encantado em uma tarde ensolarada. Certamente a noite vai ser quente. As luzes dançarão a dança dos eufóricos, dos amantes embriagados. As mulheres deflorarão em amor e sedução.

Então poderei beber a vida como quem aceita em paz a morte; tendo a absoluta certeza de que nada é em vão, e que o coração é tão imenso quanto este momento em que agora escrevo.



Luian Damasceno

domingo, 7 de junho de 2009

O Outro Lado

Acordei de manhã com os raios claros do dia entrando por entre as brechas da persiana. Após alguns minutos digeridos, aceitei a idéia de me levantar, enfrentar o mundo que se esconde por detrás dessa maldita janela. Ora, a vida não é feita de cama, filmes e cigarros (somente). É preciso enfrentar o sol, conservar o mínimo necessário de saúde para manter os mals e velhos hábitos até pelo menos os cinquenta. No entanto, uma força inexplicável suspende o peso do sono sobe minhas pálpebras. Gostaria de ser guinchado. Quem me dera poder ser arrastado nessa hora. Mais conveniente impossível. E caso este desejo estiver sujeito a reformas, gostaria de trocar aquele motorista fedorento e barrigudo, pois seria um imenso desprazer ter de olhar pra cara desse infeliz nessa “cavidade” da manhã. Bom mesmo seria se fosse uma equipe completa de Wake-up Girls das mais diversificadas etnias. Que lindo...

Mas tudo bem, ainda tenho a charmosa voz da telefonista que encomendei para meu celular a fim de me acordar mais suavemente do que aquele toque dos infernos. Ainda tenho o café fresquinho a me seduzir com seu aroma. Tenho o banho que é sagrado, banho de água benta levanta defunto! Tenho meus óculos escuros que já os coloco durante o banho. Aquele HollyBomba saboroso que faz de mim uma maria fumaça envenenada a circular pelas ruas. E é claro, acima de tudo, tem o imenso prazer de se chegar em casa e poder dormir novamente.


Luian Damasceno

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O Eu


Existem coisas a fazer, a pensar, a escrever, a não pensar. Existem horas a passar, lugares a conhecer, pessoas a conquistar. Existe muito o que estudar, muito o que comer, muito ainda a ler. Existem perguntas a responder, expectativas a corresponder, pessoas a compreender. Existem contas a pagar, quadros a pintar, dívidas a negociar. Existe a gripe que incomoda, a agenda que ta foda, aquela fita que não roda. Existe o imposto que é roubado, o processo arquivado e o povo que é lesado.


E dentro de tudo que existe, tem um peito que resiste a um sentimento embriagado, e na multidão chora calado sem saber se ele existe.


Luian Damasceno

quinta-feira, 26 de março de 2009

A oportunidade

E mais uma vez ele vinha caminhando, em seus passos firmes, coração fechado como sempre. Fora do tempo que o chamavam, não tinha quem o agradasse, quem fosse seu amigo.Talvez por isso caminhava todo dia sozinho; como se fosse uma sentença, era necessário caminhar.

Ele era o mais solitário que eu já havia conhecido, mas isso não significava isolamento; conhecido da cidade, cumprimentava todos em sua peregrinação diária. O horário de sua caminhada era sempre o mesmo havia dez anos, a cidade se orgulhava de ter um morador tão sistemático. Era alvo de campanhas políticas e esportivas. Não era fácil fazer as coisas com o garoto, seu sorriso era desconhecido, e a única coisa que ficava marcante era aquele rosto cinza e sério, mas como tudo que há naquela cidade, o que é antigo, é bom.

Já se passava das 8 da manhã e o ônibus ainda não havia passado, e eu não era o único a esperar o transporte. Ele estava ao meu lado; como sempre, irredutível quanto à sua postura. Será que ele vai andar de ônibus? Eu pensava.Tinha que avisar à cidade. Um momento histórico. Tudo vai mudar. Mudança.

E veio ele, através da neblina já fraca da manhã, aquele vermelho berrante.

- Consegue ler o número? – perguntou-me o garoto. Nervosismo, o que será que vai acontecer.

-Sim, é o 555.

-Ótimo. É esse mesmo.

Coração palpitando. Coração na boca. Momento Histórico. Mudança, até que enfim.

Piscando farol, braços para fora, gesto com a mão , buzina.

E a mudança não parou para abrir as portas, foi embora, cheia da rotina.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A Roseira

No abrir dos olhos da manhã, o menino desperta, e como de costume vai a janela assistir as carruagens, as moças, as flores e os pássaros. Porém, em um dia nublado, o menino já acordado vai a janela, não compreende o que estava diante de seus olhos, já não via mais as carruagens, nem as moças, nem as flores e os pássaros, sua decepção foi tão profunda que de imediato o menino que nunca saia de casa, foi a praça.
Lá ele via quão sem graça ficavam todas as belezas da manhã ensolarada em outra nublada, a vida lhe parecia se esconder por detrás das nuvens, e o menino foi ficando triste... Triste como tudo ali.
Foi que de repente, passou seus em uma roseira, uma roseira de rosas abertas, ainda molhadas de chuva da noite anterior, então ele pensou: Ora, como pode esta roseira ser tão viva quando todo o resto é morto? E o menino permaneceu a fitar a roseira, interrogativamente.
Ela lhe parecia um pedaço, o rastro dos dias ensolarados presentes em sua memória, lembrou-se do sorriso de sua mãe, mãe solteira, que mesmo entre tantas dificuldades é dona de um sorriso amplo e profundo... A roseira é como sua mãe, ampla e profunda, dona de uma beleza tão contagiante a qual é capaz de alegrar o mais infeliz dos seres.
E de pouco a pouco, o dia triste e nublado, já não era mais tão triste e nublado, a beleza da roseira o havia dominado. E o menino que sairá de casa a fim de encontrar o sol, percebe no céu, por entre uma brecha de nuvens se abrindo, e os raios quentes e dourados sobre ele caindo, o faziam abrir os olhos pro dia, Sorrindo.


Luian Damasceno

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Crise

O blog está em crise, nem começou direito e já não tem mais do que falar.
Culpa nossa; afinal recebemos milhares de informações todos os dias ( ou seriam kilobytes de informações?) e não processamos nada.
O mundo está em crise, os países estão em crise, os megaempresários estão em crise; todos estão perdendo rios de dinheiro, e nós estamos aqui, no nosso belo país, repleto de belas mulheres e futebol todo domingo.
Será que isso vai mudar?
Tomara que não. Enquanto o Obama tenta salvar o mundo nós estamos em pleno carnaval, e o brasileiro não esta nem aí pra crise. Salvo que agora a culpa de tudo que acontece de errado é a crise, nós não estamos nem aí.
Que bom, porque é um assunto bem chato...